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Santidade sem romantismo

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Existem por aí, circulando pela internet, e na boca de muitos pseudoprofetas que se dizem pregadores, muitas frases lindas e inspiradoras, atribuídas a Santos de nossa Igreja. Sobretudo no tocante ao assunto “santidade”, muito se fala com o intuito de se afirmar de maneira acessível e deslumbrante a vocação universal à santidade (cf. Const. Lumen gentium, 39-42) feito a todos os que se entendem por filhos do Deus altíssimo.

O grande problema é que a maioria destas frases não foram ditas pelos Santos a que se atribui, ou então é dita, ou escrita, fora do contexto em que foi proferida, prejudicando seu entendimento e esvaziando completamente sua sabedoria, e, por consequência a sabedoria do próprio Espírito Santo que é quem inspira os santos e verdadeiros profetas em seus belíssimos discursos.

Vá as fontes!

Um professor meu da faculdade de teologia da PUC-SP sempre dizia em suas aulas – “não acreditem em frases e notícias de internet, não caiam neste erro infantil, vão às fontes – pode ser fake, pode ser enganação” – em outras palavras precisamos estar atentos em quem estamos depositando nossa fé e nossa esperança, não podemos crer em tudo que dizem, e pior ainda, acreditar ser verdade porque supostamente um santo disse. Será que disse mesmo? E se disse, o que quis dizer com o que disse?

Em terra de internet quem tem o Google é rei, ou seja, com alguns cliques descobrimos se estamos colocando os pés em bases sólidas ou em areia movediça, não há desculpa. Isso sem falar na facilidade de acesso a livros e documentos de nossa Igreja, que estão inteiramente à nossa disposição em bibliotecas e na própria web.

Os santos podem cair?

“Santo não é aquele que não cai, mas o que levanta sempre!”

Esta famosa frase atribuída a São João Paulo II, na verdade tem sua origem no livro dos Provérbios – “Pois o justo cai sete vezes, e se levanta, mas os ímpios tropeçam na desgraça” (24,6) – e passou pela boca de muitos santos ao longo da história da Igreja, como por exemplo, Santa Teresa D’Ávila, São João Paulo II, São José Maria Escrivá e por aí vai.

Para ser santo é necessário contato com a Palavra de Deus e estes homens e mulheres extraordinários engoliram a Palavra com farinha, com todo respeito, e portanto, suas falas só podiam estar carregadas da sabedoria das Sagradas Escrituras, o que é maravilhoso, pois deixa claro que se temos acesso a mesma fonte que eles, podemos, e mais do que podemos, devemos ser santos.

Mas ainda refletindo sobre esta frase dita acima. Os santos podem cair? Antes de responder a pergunta precisamos saber que o versículo do livro dos Provérbios não está falando de pecado em si, mas de quedas e derrotas da vida, está falando de sofrimentos. O justo, o santo, o filho de Deus sofre, todavia ele não para no sofrimento, é esta a interpretação correta.

Porém, como em vida ninguém é confirmado pela Igreja como santo, somente após a sua morte, podemos entender sim, que muitos homens e mulheres justos, honrados e com fama de santidade caíam, porém se levantavam de coração contrito e com o firme propósito de não mais caírem no pecado cometido.

Temos que tomar muito cuidado para não atravessarmos as ideias, como dizem nas quebradas por aí, e acabarmos transformando esta belíssima e inspiradora frase em uma muleta para justificar a nossa preguiça e falta de determinação de não mais cometer pecados, especialmente pecados mortais, que são só os primeiros obstáculos da primeira fase (primeiras moradas) à qual devemos vencer para sermos santos.

Cristão que quer ser santo não tem direito, só tem dever

A primeira carta de São Paulo aos Coríntios nos ensina:

“Não sabeis que aqueles que correm no estádio, correm todos, mas um só ganha o prêmio? Correi, portanto, de maneira a consegui-lo. Os atletas se abstêm de tudo; eles para ganharem uma coroa perecível; nós, porém para ganharmos uma coroa imperecível. Quanto a mim, é assim que corro, não ao incerto; é assim que pratico o pugilato, mas não como quem fere o ar. Trato duramente o meu corpo e reduzo-o à servidão, a fim de que não aconteça que, tendo proclamado a mensagem aos outros, venha eu mesmo a ser reprovado” (9,24-27).

Não basta competir, quando o assunto é santidade, é preciso ganhar. Se lascar mesmo. Ir até o estresse muscular, psíquico e espiritual. Se gastar meu parceiro. Não tem como. Este papo de que o importante é competir, é uma distorção demoníaca que vai te levar a ser reprovado no dia do juízo final.

Paulo é claro quando nos dá a dica de que devemos tratar duramente nossos corpos, e que não podemos correr ao incerto, mas ao certo, ao pódio. Isso aqui não é teologia da prosperidade não, é teologia da santidade, afinal nosso Senhor Jesus disse – “coragem, tende bom ânimo, eu venci o mundo” (Jo 16,33) – e não, “tentem porque eu tentei”, isso é papo de perdedor. E os santos não são perdedores.

Hoje em dia se fala muito de direito e pouco de deveres, todavia as Sagradas Escrituras e a Sagrada Tradição, através dos ensinamentos dos primeiros padres, dos santos e de tantos Papas maravilhosos nos ensinam categoricamente que Cristo não veio para exigir seus direitos, como um filho mimado, mas se encarnou, se tornou homem como nós para cumprir o seu dever de filho de Deus.

A santidade e a salvação não são simplesmente um direito conquistado por Cristo para nós, mas são metas que exigem de nós o cumprimento de deveres, de entregas de amor, de doações puras e despretensiosas.

O dever na pequena via

“A santidade é para todos e não só para uns quantos privilegiados: não consiste em realizar coisas extraordinárias, mas em cumprir, com amor, os pequenos deveres de cada dia. Queres de verdade ser santo? Cumpre o pequeno dever de cada momento: faz o que deves e está no que fazes. A santidade “grande” consiste em cumprir os “deveres pequenos” de cada instante” (São José Maria Escrivá).

Não tem para onde fugir meu irmão, temos sim, para onde correr, para a vitória. E a trilha, o caminho está mais do que claro. São Paulo no ensina. São Escrivá nos ensina. Santa Teresinha do Menino Jesus, docemente nos ensina. Amar, amar e amar. Mas não de forma banalmente romântica, é urgente um amor vivaz, perene e violento pela cruz de nosso Senhor, para que possamos nos lançar e com o tempo diminuir o número de quedas por conta de pecados e passar por cima dos sofrimentos como quem nem se dá conta deles.

Não dá mais para ser seguidor de frase bonita e fora de contexto. A Palavra para nós é Cristo, Ele é a fonte segura. Ele amou servindo. Ele se gastou. Ele se lascou. Tratou duramente seu corpo. Não foi romântico, foi radical. Não podemos fazer de outro modo. Ele é nosso corredor, e corredores não param, a não ser quando cruzam a linha de chegada.

“Os santos são aqueles que lutam para se manter de pé” (Maria Francisca – Comunidade Oasis)

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